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* Geovane de Assis Batista

— Um licor, por favor!
— Pois não!
— Antes de me embriagar e de me refestelar com o LICOR dos subsídios, das diferenças do ATS, do APAE, do restabelecimento do ATS, do licor da AUTOFAGIA, da GREVE, do MI, do CHEGA... E de tantos outros que eu possa beber na festa junina, quero dar uma provadinha nesse tal de MICROFÍSICA DO pODER. Licor de nome difícil! E aí, meu caro, esse licor é dos bons?
— Só provando, companheiro! Você pode tomar de uma vez só, ou, querendo, saboreá-lo em goles homeopáticas. Se optar por esta última forma, é de bom alvitre que tenha um pouco de fôlego e paciência.
— Deixe-me ver...  Bom! Bom! Muito bom, mesmo! Tem uma cor diferente, não?
— Diferente? Como assim?
— Sei lá! Aliás, vou responder como uma vez respondeu o Santo de Hipona...
— Santo de Hipona?
— Sim: o Santo Agostinho, que, quando indagado sobre o tempo, assim respondeu: “Se me perguntas eu sei; mas se pedes explicação, já não sei mais!”.
— Legal! Mas não gostaria de arriscar? Dizem que entre a partida e a chegada, vale mais a caminhada.
— Do jeito que se impõe a primeira marcha desta conversa, acho que seu licor não deveria ser chamado MICROFÍSICA DO PODER. Nome estranho, não? Imagine o sujeito chegar pedindo: desce um microfísica do poder, aí! Só o pensar em pedir, dá até preguiça! Tenho uma sugestão de nome. Vou arriscar! Que tal LICOR FILOSÓFICO?
— Ah, sei! Como o “café filosófico”? É uma boa idéia, sem ser 51! Até já andei pensando a respeito desse assunto. O problema é que não posso. Trata-se de Franquia, e, como todo bom franqueado, há que manter o nome do agrado do franqueador.  Está no contrato!
— Entendo... Sim, mas como ia falando, a cor é quase indescritível; tem um quê de turvo e, ao mesmo tempo, cristalino. À primeira vista é turvo, depois vai ficando clarinho, clarinho... Coisa estranha! Licor, normalmente, tem cor de alguma coisa, não é verdade? Ou tem cor ou não tem cor. Penso como Parmênides...
— Parmên... O quê?

O balão vai subindo, vai caindo a garoa.
O céu é tão lindo, a noite é tão boa.
São João! São João!

— Parmênides, cara!  Aquele filósofo (c. 540-450 a.C.) que, ao contrário de Heráclito (c. 540-480 a.C), procura eliminar tudo o que seja variável e contraditório. Para ele, “Se uma coisa existe, ela é esta coisa e não pode ser outra, muito menos o seu contrário. Uma árvore é uma árvore, o Sol é o Sol, o homem é o homem, o que é, é o que é. Segue-se logicamente que ‘não-ser’ não é, não pode existir. Se só o ser existe, o ser deve sempre existir. Deve ser único, imutável, sem variações, eterno.”. Entende?
— Mais ou menos! Diga-me, então, o que seriam essas constantes mudanças, contradições e ou aspectos diferentes que você diz enxergar na cor do licor?
— Não sabes, homem? Para Parmênides, são “meras aparências produzidas por opiniões enganadoras, não pelo conhecimento do verdadeiro ser”. Não vês que a cor desse licor tem dupla aparência?
— Parece que sim!
— Parece o quê, homem! Não percebes o que Parmênides deseja afirmar? Ora, “tudo é uno”! Mais um gole, por favor! Êta licor porrrrreta!

O balão vai subindo, vai caindo a garoa.
O céu é tão lindo, a noite é tão boa.
São João! São...

— Olha... Como é mesmo seu nome?
— Anphilóphio! Mas podes me chamar de Ópio; é como sou conhecido.
— Ópio... Anphilóphio fica melhor! Pois bem, a propósito da afirmação “tudo é uno”, você me fez lembrar do velho Aristóteles, para quem o ser “não é uma coisa única e eterna” — como o ser de Parmênides: “É um “quê” presente em cada coisa que existe, e que faz com que esta coisa seja precisamente esta e não outra.”.
— Mas como, homem? Veja o Poder Judiciário: ou ele é ou não é! Ou existe ou não existe. Não vale dizer que existe e, quando comparado aos outros, não existe! Meio confuso esse dizer de Aristóteles!
— Vamos com calma! Tome mais um gole!
— Boa idéia... Mas — como tens dito —, não é cinqüenta um, é microfísica do poder! Aliás, ainda não entendi bem o porquê desse nome... Sim, dizias então que o ser “é um “quê” presente em cada coisa que existe, e que faz com que esta coisa seja precisamente esta e não outra”, não é isso mesmo?
— Exato! O que afirma Aristóteles é que o ser é uno e se diz de vários modos. Veja a União. Ela é UNA, mas se revela por meio do Poder Legislativo, Executivo e daquele outro que o amigo mencionou. Mas, note-se: não necessariamente nessa ordem. Ora, ela legisla, ora governa, ora julga, podendo, também, expressar essas três formas de modo simultâneo, harmônico e equilibrado entre si, e ainda assim será a mesma: única, UNA! É nesse exato sentido que o UNO de Parmênides diferencia do UNO de Aristóteles!
— Deixas ver se entendi: assim como a União, o homem também é UNO. Se for para Parmênides, ou é homem ou é homem; e a mulher, ou é mulher ou é mulher. Logo se segue que o homem não pode ser mulher nem a mulher pode ser homem. Homem é homem, mulher é mulher. Já para Aristóteles, esse homem ou essa mulher constitui um ser que se diz de muitos modos, mas apenas um é seu significado primário, fundamental: ou homem ou mulher! Então posso afirmar que o ser é UNO e MÚLTIPLO ao mesmo tempo?  É isso?
— Não duvide que sim!
— Sucede-me agora uma outra preocupação! Não me leve a mal, mas vou perguntar: e como fica a questão da androginia, dos homossexuais, levando em conta o UNO de Parmênides?
— Já tentou encontrar a resposta com Aristóteles?
— Como pude ser limitado! Claro! O ser se diz de vários modos! É isso: o ser é UNO é MÚLTIPLOS!
— Creio que posso ajudar mais um pouco. Anote-se que as “divisões do ser” ou as “categorias do ser” ou “gêneros do ser”, costumam ser representadas pela “tábua das categorias”, a saber: 1. Substância ou essência; 2. Qualidade; 3.Quantidade; 4. Relação; 5. Ação ou agir;  6. Paixão ou sofrer; 7. Onde ou lugar; 8. Quando ou tempo; 9. Ter; 10. Jazer. Certamente, em alguma dessas categorias poderá ser localizada a sexualidade.
— Zorra! O ser é múltiplo mesmo! Estou gostando desse negócio! Sou até capaz de ir mais além, para demonstrar que a lição foi aprendida. Veja a figura do magistrado: é sabido que esta é mais um dos modos de se dizer do homem. Nesse horizonte, pensas no magistrado de Parmênides! Pensastes? Sabes então que ele é UNO, isto é, ou é magistrado ou não é. Nessa concepção, o não-ser magistrado é o mesmo que não existir. Nessa mesma linha de raciocínio, tomas, agora, o magistrado de Aristóteles e concordarás comigo que ele pode ser dito de várias formas. Assim convencido, dirás que num momento, será um homem do licor, noutro, da abstinência etílica; homem da alegria ou da tristeza, do ócio ou do trabalho, da paz ou da guerra, do amor ou do ódio, da temperança ou da descompostura; homem que prolata sentença, mas que também joga bola, que dança forró; que é ateu, agnóstico ou amante do divino; que beija, que cospe; que lembra e que esquece; que estuda, trabalha, casa, tem filhos, viaja e que precisa de valorosos subsídios; que faz greve... Enfim, um ser mundano, intramundano... Um ser do mundo! Pensar num magistrado transcendental é acreditar no enganoso itinerário: sessão-gabinete, gabinete-casa, casa-armário, armário-sessão, sessão-gabinete... Tonalizado o magistrado com as tintas de Parmênides ou com os vernizes de Aristóteles, não haverá mais espaço para o estranhamento, por exemplo, da eticidade que repousa na dição segundo a qual “magistrado não faz greve!” ou naqueloutra contrapontística, querendo: “magistrado faz greve, sim!”.
— Sensacional! Se licor tivesse, cinco doses tomaria de um só piscar!
— Gostou? Então, vai uma frase pronta: “tô todo me sentindo...”! Se não te importas, diga-me mais uma coisinha: posso também dizer que o Judiciário é UNO e que se diz de vários modos?
— Por que, não? Sinta-se à vontade!
— Êta língua que não fica dentro da boca, homem! Deve ser o tal do MICRO... Como é mesmo o nome?  Um momento! Vou ler aqui! Há, já vi: MICROFÍSICA DO pODER! É ele o motivo de tantas perguntas. A propósito das categorias “5” (Ação ou agir) e “6” (Paixão ou sofrer), de que fala Aristóteles, como o Poder Judiciário poderia ser significado nesse contexto? Antes de responder, podes colocar mais um pouco do “micro” no meu copo? 
— Com prazer!
— Percebo que a garrafa está ficando vazia!
— Tenha calma, Anphilóphio! Muito não tardará a chegar a remessa de garrafas que pedir ao fornecedor! Pois bem! Quanto à inquietação de como o Poder Judiciário pode se nos apresentar, respondo logo!

O balão vai subindo, vai caindo a garoa.
O céu é tão lindo, a noite é...

— Será mesmo que vão mandar o licorzinho prá cá?
— Esse é o nosso desejo!  Se faltar, faltará dinheiro e, o que será pior: vou perder o amigo para as outras barracas, sem que ultime nossa marcha, não é verdade?
— Nem fales! Agora que me encontro na terceira marcha, seria um desastre!
— A saída, por enquanto, é aumentar, homeopaticamente, os goles do “MICRO”. Desse modo, não perderá o sabor na boca e assim poderei responder o que me perguntou quanto às duas categorias de Aristóteles, agora relacionadas ao Poder Judiciário. Assim conversados, digo que a resposta já é sabida; você mesmo pode trazê-la à luz.
— Como assim, homem?
— Do mesmo modo que falou sobre o UNO de Parmênides e de Aristóteles!
— Não sei se conseguirei! Vá lá! O Judiciário é UNO e, nos vários modos de existir, tanto pode agir como sofrer ações. Ali, quando, por exemplo, segue cumprindo seu mister constitucional de declarar e de dar efetividade ao direito. Aqui, quando recebe os reclamos da comunidade conforme a morosidade denunciada; ou, o que é mais recorrente (já sinto aquela glândula papilar do lado esquerdo reclamar pelo licor das outras barracas! Calma, Ópio!), sofre o descaso intencional dos outros poderes, como soem ocorrer com o projeto de lei dos subsídios e da emenda constitucional acerca do restabelecimento do ATS.  Acertei?
— No alvo!
— Mas, amigo, percebo, entretanto, que, no exemplo dado, pode ser aplicado o vetusto adágio, a saber: “Para toda ação, uma reação”, et sic deinseps!
— Agora é minha vez, Anphilóphio: et sic...
— Isso é latim, homem! Quer dizer: “e assim por diante”! Ou seja, se os poderes Legislativo e Executivo assim agem em contraponto à atuação do Poder Judiciário, na lida com as coisas morais a eles relacionadas, tal recalque pode ser ignorado pelos membros deste Poder — mormente por magistrados e procuradores, porque visibilidades lhe dão —, ou então reagir. Esta ‘re-ação’, como do nome infere, constitui também um agir (ação), agir contra outra ação; enfim, ação contra ação. Assim, se não legitimam o reajuste dos subsídios — ainda que divorciado de qualquer ganho real —, a negociação, a impetração do MI, a greve e tantos outros modos de tais naturezas são re-ações que retiram ao Judiciário eventual inércia em que se possa encontrar.
— Anphilóphio, continuar na investigação que se inicia é preciso!
— Não obstante, amigo, vejo que a reação tem que ser bem trabalhada, fazendo sempre observar a advertência prudencial: “Não tenha pressa. Mas, não perca tempo!”. O não ter pressa de que cogita, reclama o cuidado no modus faciendi: - como re-agir àqueles poderes, encontrando o justo modo de fazê-lo, sem, contudo, prejudicar a crença no restabelecimento do ATS, por exemplo? Como imbricar essa pré-ocupação (aquilo de que se ocupa antes) com o “não perder tempo”?
— Se me perguntas, digo, por ora, que não sei! Mas também não desejo ser fica na casa dos omissos. Posso contribuir dizendo que, em casos que tais, se nos apresenta de bom alvitre fazer uso da benfazeja lente da sabedoria popular: “A cada dia, sua agonia!”.  A dose alopata, Anphilóphio, poder ser a droga de logo aconselhada. Dizem que não é bom ser tardio, quando se pode ser jovem!  Para uns, a Lei do Talião; para outros, a face e mais a outra para ser batida. Homens do Talião, ou dos ressentimentos? A resposta não é fácil! Mas, todo labirinto tem sua saída. Eis o desafio que deve ser enfrentado, sempre com o reclamo da justa medida!
— Caramba, homem! Eu bebo e você que diz coisas! Amigo, pegas do copo e, ao modo alopata, viras de uma vez só. Comemorar é preciso! Amigo, sabia que ‘comemorar’ significa trazer o que ficou na memória para o presente; ou seja, ’comemorar’ é festejar com a memória! Com Santo Agostinho, podemos ainda dizer que ‘comemorar’ significa “o presente das coisas passadas” ou “o agora do que passou”. Afinal, o passado das palavras até aqui usadas se une ao presente do que está sendo dito!
— Sei! Você fala de um tempo psicológico, diferentemente daquele cronológico. Cada vez mais se torna imperiosa a leitura dos escritos desse filósofo afro-descendente (assim mesmo, como gosta a contemporaneidade, no colchão do eufemismo).

O balão vai subindo, vai caindo a...

— Outra dose, amigo!
— Sinto dizer, Anphilóphio: o que tem na garrafa só dá mesmo para mais ‘umazinha’. Beba, enquanto o fornecedor chega.
— Uma pena, amigo! Que assim seja! Ah! Quase esquecia: diga-me, afinal, por que “MICROFÍSICA DO pODER”? E por que o ‘p’ minúsculo no PODER do MICROFÍSICA?
— Só um instante, Anphilóphio! Um correspondente do fornecedor acaba de chegar!
— Vejo que a conversa vai continuar a perder de vista, não é mesmo?
— Creio que não! Noticia-me ele que o fornecedor só mandará a encomenda relacionada ao “MICROFÍSICA DO pODER” se for pago o preço unitário de oito reais, caso contrário, ficarei sem o licor.
— É mesmo? Não quero me intrometer na tua vida. Mas, por quanto revendes cada garrafa? Ou, de outro modo, o valor que cobras por dose faz frente às despesas e ou ao sucesso do lucro?
— Vendo por sete reais, e a dose vai à devida proporção. Assim pratico para dar continuidade à tradição junina. Aliás, aqui no arraial, há anos que esse é o preço praticado por todos os vendedores de licor.
— Mas esse aumento foi assim de chope?
— De “chope”?
— Acho que estou ficando zonzo! Digo, “de chofre”!
— Não! Desde há muito que vinha ameaçando fazê-lo. Com o tempo, pensei que havia esquecido ou concordado as minhas ponderações e a dos poucos vendedores do “MICRO”.
— E já voltou a conversar com o homem da Franquia?
— Essa questão não diz respeito a ele. O negócio entabulado toca a mim e ao fornecedor. Para ele, parece viger a regra extensiva aos negócios do comércio: “Quem não tem competência, não se estabelece.”.
— Seja direto, homem! Bem sabes que é a força do capital se expressando por meio de um de seus modos imperativos: o conflito de interesses entre os detentores dos meios privados de produção; há toda uma arqueologia estruturada para dar sobrevida apenas a quem pode mais...
— Pode até ser! O certo é que se eu não pagar o reajuste, terei que fechar o negócio.
— Negocies, mais uma vez, homem! Diga ao correspondente que faça chegar ao homem do licor a sugestão de fazer a remessa das garrafas, adiando o reajuste dos preços até o próximo São João! Se, com esse estratagema, a resposta continuar negativa, peças redução do percentual! Ainda vale a boa negociação para ganhar tempo. Enquanto isso, vale o empurrar com a barriga.
— Não parece ético!
— Ético o quê, homem? Já viu eticidade em aves de rapina?
— Tá certo. Assim farei!
— E então?
— Fiz como sugeriu! Mas, confesso que jamais imaginei a possibilidade de o fornecedor se valer desse expediente, para arrostar minhas desculpas... Logo, agora... No início das festas!
— Amigo, vou te contar uma situação fática por que passou a esposa de um amigo meu com suas empregadas. Serei breve! Narrou-me um dia que suas duas empregadas — ambas as irmãs, sendo uma delas babá das filhas de um ano e de outra de três anos — ligaram para o celular de sua esposa dizendo que não compareceriam ao trabalho naquele dia. Ele não soube do motivo por elas alegado, mas acrescentou que a mulher entrou em desespero, porque saíra para trabalhar às sete horas, deixando as duas crianças com ele até que as empregadas chegassem, quando então poderia sair para seu trabalho, às oito horas. Resumindo: a mulher teve que tornar ao lar e o marido, ao trabalho chegar depois das dez horas e trinta minutos.
— Que transtorno!
— Pois é! Às vezes, a gente não se dá conta do poder que essas pessoas têm quando resolvem não trabalhar. Mudando o que deve ser mudando, é igualzinho à situação dos empregadores com a notícia de greve dos trabalhadores. Isso que é poder!

O balão vai subindo, vai caindo a garoa.
O céu é tão lindo, a noite é tão boa.
São João! São João!

— Com a ‘mudinha’ do São João, lembrei que não respondi à sua pergunta sobre o nome do licor. Peço desculpas pela demora. Não é descaso ou desconhecimento. Esse fornecedor me tem tirado do sério, Anphilóphio! 
— Não ligas!  Tudo se resolverá!
— Vejo que, com mais um gole, seu copo ficará vazio! Antes que saboreie o último, vai o que prometi: quando iniciei nos negócios do licor, notei que o mais vendido era o “MICROFÍSICA DO pODER". Assim como você, indaguei do fornecedor acerca da genealogia do nome, ao que me respondeu que assim o nomeou no momento em que repousava a visão sobre uma tábua jogada num certo canto da casa, bem na hora em que ultimava as misturas químicas de sua composição francesa. Disse-me, ainda, que as palavras ali grafadas, quando pronunciadas, produziam uma sonoridade aprazível e inquietante; e que nunca havia buscado o sentido semântico daqueles sinais. A mim também me encantaram a grafia e a sonoridade da frase. Mas, diferentemente desse homem, algo me impulsionou a buscar a significação. Na busca, soube que a mesma tematiza a obra de um grande pensador francês: Michel Foucault. Não perdi tempo: de um só fôlego, li a obra, retendo em minha memória toda problemática ali tratada.
— Michel Foucault? Microfísica do poder?  Vamos lá, homem, qual era a temática?
— No convite à sua leitura, Roberto Machado, destaca que a Microfísica do Poder é uma coletânea de artigos, cursos, entrevistas, debates, onde Foucault analisa questões relacionadas à medicina, à psiquiatria, à geografia, à economia, mas também ao hospital, à prisão, à justiça, ao Estado, ao papel do intelectual, à sexualidade etc. Textos heterogêneos e variados — acrescenta o apresentador — que têm como tema central o poder nas sociedades modernas: sua configuração, sua difusão no corpo social, seu exercício em instituições, sua relação com a produção da verdade, as resistências que suscita. Esclarece, ainda, Roberto Machado, que há duas grandes novidades nos textos desta coletânea: primeiro, rejeitar a identificação entre poder e aparelho de Estado, dando importância a uma rede de poderes moleculares que se expande por toda a sociedade; segundo, caracterizar o poder não apenas como repressivo, mas também como disciplinar, normalizador. Ainda nos ensina Foucault — lembra o resenhista — que nem o poder é total, nem o saber é unilateral: onde há poder e saber há resistência. Em suma, o método genealógico desenvolvido por Foucault, evidencia a existência de formas de exercício do poder diferentes do Estado, a ele articuladas e indispensáveis à sua sustentação e atuação eficaz. E na medida em que o poder não está localizado exclusivamente no aparelho de Estado, diz Foucault, nada mudará a sociedade, se os mecanismos de poder que funcionam fora, abaixo e ao lado dos aparelhos de Estado a um nível muito mais elementar, cotidiano, não forem modificados’ (FOUCAULT, 2006).
— Quer dizer, então, que o fornecedor de licor, a falta ao trabalho das duas empregadas domésticas, a proposta de greve dos magistrados, a impetração do mandado de injunção (MI), a campanha do CHEGA, as reiteradas negociações etc., podem ser compreendidos, conforme se imponham de forma ativa ou reativa, como ‘poderes moleculares’ exercitáveis na sociedade. Mas não é só! Veja que, no caso do MI, se os magistrados e ou os procuradores fazem uso desse micro poder e, não obstante tal exercício, quem deve dele conhecer, processar e julgar, fá-lo dormir eternamente em gaveta esplêndida, ambos os atos (comissivo e omissivo) por ele praticados, cada um em sua medida teleológica, revelam inegável micro poder; mas, com a diferença de que, ali, o direito é agitado por legítima insurgência ao Legislativo e ao Executivo; e, aqui, quando, ao modo do peleguismo sindical, se faz nutrir esses poderes, mantendo-os no lugar onde já se encontram: no ápice da pirâmide governamental. Logo, a micro física desse poder, em situações que tais, exige que seus operadores busquem a sabedoria, a maestria na tática e na estratégia; a uma, para balançar os pilares da União, não constituindo insucesso a necessária harmonia de suas categorias; a duas, para detonar o mau colesterol, que abusa em transitar nas veias do Judiciário, cuja gordura que flui do ejedouro do obeso Executivo, fere frontalmente o sufrágio democrático que deveria reinar entre os pares daquele Poder receptor. Nessa quadra, amigo, não seria de mau tom dizer que o casamento entre as idéias parmenidianas, aristotélicas e foucaultianas bem autorizaria a dizer que a “microfísica” também se diz de vários modos, cabendo aos magistrados e aos procuradores descobrir onde reside o calcanhar de Aquiles, uma vez que este já é sabido. Descobrindo-o, o instrumental, de fogo ou o do metal perfuro-cortante, não deixará de pé todo e qualquer Aquiles, como fizera seu fornecedor e como fizeram aquelas domésticas. Não se pode perder de vista que o PODER não é unilateral, mas, bilateral, e, portanto, PODER também é SABER e SABER é PODER. Isso é importante assinalar, para que não se perca em fastidiosos falatórios, discursos emocionais, vazios. Para identificação do ponto fraco dos situacionistas do aparelho estatal, há que se maximizar mais as conclusões... (a onda “CHEGA” é sintomática do que se vem afirmando até aqui. Louvável a luta de trincheiras, afinal todo gás pressionado busca a saída. Todavia, não paradigmática, porque meramente re-ativa, pois que visa apenas à batalha, olvidando da guerra)... Há, pois, que maximizar mais as conclusões, sob pena de continuar no velho erro do pecado opiniático, como amiúde ocorre nas listas de discussão, ante a natureza não conclusiva das inúmeras e respeitáveis doxas que por ali desfilam.
— Anphilóphio! Não sou Aquiles! Mas, sinto que acertaram um dos meus calcanhares: diz-me o correspondente que não há mais espaço para minha proposta. Como não tenho como pagar o preço imposto, não me resta outra saída. O custo com aluguel e com o novo preço, silenciosamente, aconselha que abandone o negócio. Portanto, vá, homem. Beba seu derradeiro gole e, se São João quiser, volte no próximo arraial! Quem sabe se no ano vindouro já não traga nova placa escrita: “LICOR FILOSÓFICO”? Pelo menos não serei vítima da força das palavras que dão nome à barraca e ao licor que você a uma garrafa deu cabo: “MICROFISICA DO pODER"!
— Amigo, sinto muito! Confesso que só agora compreendo o porquê do “p” do PODER é minúsculo! Como fui tardio! Foi bom te conhecer e provar desse bom licor. Vou sim! Mas, antes de clicar no link “próxima” da caixa de mensagens — seja nos SUBSÍDIOS ou no CHEGA ou na AUTOFAGIA... —, posso fazer outra pergunta que se segue a esta?
— Disponha!
— Posto que procurasse direitinho aí dentro da barraca, será que o amigo não encontraria alguma garrafa perdida com o nome “MICRO FÍSICA DO pODER"? 
— Anphilóphio, meu caro, vejo que é hora de clicar em outro licor! Aqui, sem você e sem o microfísica, fico a pensar em outros mecanismos de defesa ou de poder.
— Entendo!
— Anphilóphio, ao levantar as paredes de uma casa, não hesite, habite-a. Não deixe que ela se transforme em ruínas sem história!

REFERÊNCIAS:

FOUCAULT, Michel. Microfísica do Poder. Rio de Janeiro: Graal, 22ª, ed., 2006.

OS PENSADORES. História da Filosofia. São Paulo: Nova Cultural, 2004.

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* Geovane de Assis Batista. Juiz Auxiliar da Vara do Trabalho de Simões Filho - BA. TRT da 5ª. Região.